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AGORA É PARA VALER, OU NÃO?


Foto de Rui Tavares Maluf

Por Rui Tavares Maluf*


A realização dos levantamentos de intenção de voto para prefeito de São Paulo do IBOPE e DATAFOLHA (pela ordem do trabalho de campo) pode ser considerada a de maior valor até o momento, seja pela importância de ambos os institutos de opinião pública quanto pelo caráter oficial das candidaturas colocadas nos questionários uma vez que as convenções de indicação dos postulantes aos cargos de prefeito e vereadores já foram realizadas. A divulgação das duas pesquisas se deu na semana de 21 a 28 de setembro e com trabalhos de campo efetuados entre os dias 15 a 17 (IBOPE) e 21 a 22 (DATAFOLHA). Apesar das convenções já terem sido realizadas, existe a dúvida sobre uma das candidaturas uma vez que na mesma semana em que ambos os resultados foram divulgados o partido NOVO suspendeu a candidatura de Filipe Sabará por razões de ordem ética já divulgadas pela imprensa. Conquanto o referido nome pouca expressão tenha até o momento na disputa, trata-se de variável importante e que poderá, em tese, alterar a dinâmica da campanha a depender de como ficar sua situação.

O intervalo de quatro (4) dias entre o fim do levantamento do IBOPE e o início do levantamento do DATAFOLHA pode, em tese, afetar os resultados. Considere que o IBOPE trabalhou com 16 nomes enquanto o DATAFOLHA com 14, o qual é o efetivamente o total registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e já disponível no sítio eletrônico da instituição. Por outro lado, dado que o público de forma geral pouco ou nada conhece da maioria dos candidatos, tal situação pode ser minimizada e talvez não comprometa este levantamento do IBOPE.

Metodologia

O desenho das amostras dos dois institutos (como os atributos e variáveis) é ligeiramente diferente, mas não a ponto de comprometer a comparação entre os resultados ao menos no que se relaciona aos dados totalizados e de certas variáveis. IBOPE e DATAFOLHA trabalham com margem de erro de três (3) pontos percentuais para mais ou para menos e com níveis de confiança de 95%. Em linhas gerais, ambos procuram cobrir o universo do eleitorado potencial paulistano, embora o DATAFOLHA explicite maior número de atributos e variáveis trabalhadas a partir dos atributos selecionados (exemplos: no atributo ocupação principal e religião) ou haja diferença nos mesmos atributos (exemplo: na renda familiar, o IBOPE começa com até 1 salário mínimo e para em mais de 5 salários mínimos e o DATAFOLHA inicia em até 2 salários mínimos e termina em mais de 10 salários mínimos. O número de entrevistas é muito semelhante (1001 no IBOPE e 1092 no DATA1FOLHA). É bem possível que as diferenças em relação ao tamanho do questionário se deva a razões orçamentárias decorrentes dos valores contratuais. Embora suponha-se que ambos institutos já começaram a trabalhar com levantamentos presenciais devido a forma como parte da metodologia está exposta nos relatórios, não há informação explícita.

Sobre os resultados das intenções de voto

O candidato Celso Russomano sai à frente nos dois (2) levantamentos tendo o atual prefeito Bruno Covas em segundo (2º) também lugar em ambos os institutos, embora no do IBOPE a diferença de seis (6) pontos de vantagem se encontre na margem de erro. Já na do DATAFOLHA a superioridade de nove (9) pontos fica de fora. A terceira (3ª) posição (ainda bem abaixo do segundo – 2º - colocado, Covas) está tecnicamente empatada entre o candidato Guilherme Boulos (PSOL) e Márcio França (PSB), mas com o primeiro um (1) ponto à frente nas duas o que sugere (apenas sugere) que ele possa estar mesmo na 3ª posição. Da quarta (4ª) para a quinta (5ª) e demais posições, a campanha fica muito parelha com pontuações muito baixas ou mesmo sem pontuação indicando seja a própria fragilidade das bases de sustentação dos postulantes, combinado ao ainda pouco conhecimento dos nomes.

Intenção de voto dos principais candidatos a prefeito de São Paulo
CANDIDATO PARTIDO IBOPE DATAFOLHA
Celso Russomano Republicanos 24 29
Bruno Covas PSDB 18 20
Guilherme Boulos PSOL 08 09
Márcio França PSB 04 04
Os demais Inespecífico 11 13
SUB-TOTAL 01 67 79
Brancos e Nulos 23 17
SUB-TOTAL 02 90 96
Não sabe, não respondeu 10 04
TOTAL 100 100

Diferença moderadamente importante nos resultados totalizados dos dois (2) institutos se refere ao tamanho de entrevistados respondendo Não sabe em quem vai votar. Enquanto no IBOPE este é de 10% no DATAFOLHA é de somente 4%. Já no questionário espontâneo (sem a apresentação dos nomes) há grande coincidência. No do IBOPE 56% afirmam Não saber e 57% fazem o mesmo no DATAFOLHA.

Mirando nos atributos e variáveis

O desempenho dos candidatos tende a variar no âmbito dos atributos e variáveis, variação esta que pode ser maior ou menor a depender do postulante, conquanto faça-se a ressalva de que o tamanho do eleitorado de cada agrupamento também é diferente.

Observe o caso de Celso Russomano que lidera a pesquisa. Junto as donas de casa (DATAFOLHA) ele obtém o melhor resultado (41%), seguido de quem recebe até 2 salários mínimos (DATAFOLHA, 36%) e 34% tanto com os Evangélicos e por quem se define de outra Cor (ambos no IBOPE). E Russomano se sai pior junto ao eleitorado que ganha mais de 10 salários mínimos (14%, DATAFOLHA), mais de 5 a 10 salários mínimos (16%, Datafolha) e mais de 5 salários mínimos (17%, IBOPE). São extremidades que se afastam de forma significativa de sua intenção total de votos pelos dois institutos. Há, portanto, uma amplitude de 28 pontos percentuais (incluindo-se valores os extremos máximo e mínimo).

Bruno Covas, por seu turno, apresenta sua melhor performance em quem avalia sua administração como ótima ou boa (IBOPE), 42% e tem 60 anos ou mais de idade (DATAFOLHA), 28%, enquanto seus piores resultados encontram-se entre os que avaliam seu governo como ruim e péssimo (IBOPE), 2% e tem idade entre 35 e 44 anos (IBOPE), 12%. Interessante que nesse segmento é o da idade de Bruno e este segmento do eleitorado expressa quase 22% de todos os eleitores paulistanos. Assim, a amplitude nas pontuações dadas ao atual prefeito é de 41 pontos, muito maior do que a de Russomano. É fato, porém, que somente Covas conta com a variável avaliação de governo, e caso esta fosse excluída o intervalo seria de 17 pontos (12% a 28%).

Já Guilherme Boulos apresenta seus melhores desempenhos da seguinte maneira e todos no DATAFOLHA: 20% (quem tem ensino superior), 19% (idade de 25 a 34 anos, que é expressivo por reunir quase 20% do total do eleitorado) e 18% (em quem renda de 5 a 10 salários mínimos e de 10 salários mínimos para cima). Ou seja, um candidato de esquerda que se sai melhor junto a quem tem maior renda. Pelo lado negativo, Boulos não pontua junto às donas de casa (DATAFOLHA) fato que fica bem claro ao se verificar que vai muito mal para quem se diz evangélico e também recebe até 1 salário mínimo de renda (ambos pelo IBOPE) com somente 2%. Desse modo, a amplitude de Boulos é de 19 pontos.

O ex-vice-governador de São Paulo, Márcio França, tecnicamente empatado com Boulos mas aparecendo em quarto (4º) nos levantamentos dos dois (2) institutos. E tal como Boulos, o melhor desempenho de França se encontra ao lado de quem informa ter mais renda (a partir de 5 salários mínimos para mais e de 10 salários mínimos para cima, isto é, 12% em ambos e no DATAFOLHA). Mas o ex-vice-governador não se sai nada mal (acima de sua intenção total) junto aos jovens (16 a 24 anos) e maduros 45 a 49 anos com 11% (DATAFOLHA) e quem recebe de 2 a 5 salários mínimos, 10%, também no DATAFOLHA). Trata-se de dado relevante porque se trata de razoável regularidade em segmentos expressivos. E seus piores resultados coincidem com o total de suas intenções de voto, ficando sempre entre 4% e 5%.

A rejeição

Rejeitar um candidato é sempre fator importante para se dar ideia das dificuldades de crescimento no decorrer da campanha, mesmo que parte da rejeição possa ser eliminada, há maior tendência à cristalização (rigidez) da rejeição do que da intenção de voto. Assim, é conveniente comparar intenção à rejeição, ainda que se deva considerar que os institutos formulem a pergunta para respostas múltiplas (em mais de um nome se o entrevistado assim desejar, e, portanto, com totalização superiores a 100%). Evidente, que se deva imaginar que o primeiro nome marcado na rejeição é mais sedimentado do que o(s) outro(s).

CANDIDATO PARTIDO IBOPE DATAFOLHA
Celso Russomano Republicanos 24 21
Bruno Covas PSDB 30 31
Guilherme Boulos PSOL
13 24
Márcio França PSB 10 14
SUB-TOTAL 77 90
Os demais Inespecífico 108 195

Conhecimento

Bem, mas tanto intenção quanto rejeição são comportamentos razoavelmente associados ao grau de conhecimento que o eleitor tem dos candidatos e com a particularidade que apenas um postulante, Bruno Covas, é quem exerce o cargo de prefeito. Portanto, ele tende a reunir mais fortemente as manifestações do que há de mais conhecido e menos conhecido sobre cada um. Além disso, nenhum outro postulante já foi prefeito na capital paulista. Por outro lado, Russomano é tão conhecido quanto o atual prefeito, mas com a suposta vantagem de não ter o desgaste de ser governo. E a diferença desses dois nomes em relação aos demais é bem grande nos dois institutos.

Apoio de lideranças

Por enquanto, o eventual apoio explícito de lideranças tem resultados razoavelmente diferentes sobre os candidatos, provavelmente em razão da forma como as questões e as alternativas foram apresentadas aos entrevistados. No IBOPE os apoios são mais relativos, provavelmente dando a entender que potencializam mais que já observa associação de valores e ideias entre a liderança e o(a) candidato(a) apoiado. No caso do DATAFOLHA, o apoio de qualquer um tem impacto mais negativo do que positivo, sendo que o do atual presidente Jair Bolsonaro é o mais negativo dentre todos os líderes com 64% contra 59% do atual governador João Doria de eleitores que afirmam que não votariam de jeito nenhum em alguém apoiado por eles.

O mais interessante, porém, é o que os institutos não sondaram, isto é, saber se os entrevistados saberiam dizer alguma coisa a respeito das propostas dos candidatos. Bem, quanto a isso, os próprios candidatos pouco tem o que dizer fora alguns bordões, pois o grau de conhecimento dos mesmos sobre os desafios da metrópole São Paulo fica muito a desejar, uma vez que historicamente a vida urbana no Brasil é pouco valorizada pela vida política, não sendo diferente com a maior cidade e município do País em termos populacionais e econômicos. Quem sabe estes dois levantamentos mostrem a todos nós que agora a campanha é para valer.


*RUI TAVARES MALUFProfessor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP). Ex-coordenador da Pós-Graduação em Opinião Pública e Inteligência de Mercado (OPIM) da mesma instituição (2010-2019). Doutor em Ciência Política (USP), mestre em Ciência Política (UNICAMP). Autor dos livros Amadores, Passageiros e Profissionais (2010), e Prefeitos na Mira (2001), ambos pela editora Biruta.


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AVALIAÇÃO DE BOLSONARO EM AGOSTO 2020:

NOVAS REFLEXÕES SOBRE A PESQUISA DATAFOLHA


Artigo disponibilizado em 20 de agosto de 2020


Foto de Rui Tavares Maluf

Por Rui Tavares Maluf*


O levantamento realizado pelo instituto Datafolha nos dias 11 e 12 de agosto de 2020, com 2065 entrevistas, para medir a avaliação da opinião pública sobre o desempenho do presidente Jair Bolsonaro me estimula a fazer novas reflexões sobre os resultados em si, mas também sobre a metodologia empregada. Consumir uma informação sem conhecimento dos meios empregados para difundi-la faz pouco sentido o que procuro alertar em diferentes textos que escrevo. Chamo a atenção para quem lê meu artigo pela primeira vez, que sobre este mesmo tema escrevi outro artigo recente o qual ajuda a esclarecer muito do que desenvolverei a seguir de sorte a não precisar me repetir (não muito, espero). Faço questão de destacar mais uma vez a larga contribuição que o referido instituto dá para a compreensão da opinião pública do Brasil desde sua criação nos anos 80, e, consequentemente, para o próprio regime democrático. Por isso mesmo, meu respeito me leva a apontar o que me parecem ser inconsistências ou aspectos obscuros sempre que julgo procedente. Mas no artigo presente, meu interesse é mais o de explorar o que invariavelmente é omitido ou tratado com muita brevidade pelos órgãos de comunicação ao divulgarem os resultados da pesquisa.

Primeiramente, sempre que novos levantamentos sobre um mesmo tema são realizados há a expectativa lógica de se fazer a comparação com os anteriores. Para que isso seja possível faz-se fundamental dispor de critérios claros e bem estruturados nas variáveis empregadas para que não haja mudanças nos aspectos centrais (se possível) e quando estas ocorrem, que se apresente o que pode ou não ser comparado. Estes são conhecidos, basicamente, como estudos longitudinais. No presente levantamento, o instituto Datafolha fez duas (2) perguntas para os entrevistados, a saber: 1) O presidente Jair Bolsonaro completou um ano e sete meses de governo. Na sua opinião o presidente Jair Bolsonaro está fazendo um governo ótimo, bom, regular, ruim ou péssimo? e ; 2) Você diria que sempre confia, às vezes confia ou nunca confia nas declarações do presidente Jair Bolsonaro? Pela maneira como o relatório da pesquisa foi divulgado subentende-se que a ordem de apresentação foi a que apresentei.

Em relação ao levantamento dos dias 23 e 24 de junho o instituto se preocupou em medir vários aspectos implicando na produção de mais de um relatório. Ficava evidente já no título de um dos relatórios que o objetivo principal era a “Avaliação dos Governantes”, ou seja, os propósitos da pesquisa eram mais abrangentes (como a prisão de Fabrício Queiroz, ex-assistente do filho do presidente quando Flávio Bolsonaro era deputado estadual no RJ). O referido levantamento se propunha a: 1) conhecer a avaliação da opinião pública sobre como os governantes lidaram com a epidemia do coronavírus (incluindo os governadores sem especificá-los); 2) como o presidente Bolsonaro lidou com a pandemia da covid-19; e 3) a imagem do presidente. As perguntas também foram diferentes demandando, provavelmente, mais tempo do entrevistado. Aparentemente, quase tudo é igual, mas aproveita-se em cada uma para inserir assuntos bem do momento e ai pode haver diferenças relevantes que podem, eventualmente, trazer consequências não desejadas. O instituto poderia retrucar a esta afirmação dizendo que é este mesmo seu papel; o de levar em conta os aspectos do momento a fim de aprimorar a compreensão sobre variações importantes na opinião pública. No presente levantamento, a questão extra, a qual gerou outro relatório, procura medir como a opinião pública atribui responsabilidade ou não ao presidente Bolsonaro nas mais de 100 mil mortes provocadas pela pandemia do coronavírus. Mas seja neste relatório quanto no da avaliação de governo e de confiança no presidente, não é informado ao leitor qual foi a ordem em que as questões foram formuladas aos entrevistados no total e qual o tempo médio consumido por cada entrevista.

Passo, agora, a tratar dos resultados gerais da pesquisa de avaliação do governo e da confiança no presidente Bolsonaro. A avaliação dos que avaliam como Ótimo / Bom o governo Bolsonaro com um (1) ano e sete (7) meses é maior do que as duas (2) outras possíveis avaliações dentre os que tem opinião formada, isto é, os que avaliam o governo dele como Regular e Ruim / Péssimo (ver tabela) e os que Não sabem. Mas é bem contraditório quando se compara tais resultados com os relativos à confiança depositada no presidente. Nos resultados gerais, os que respondem que Sempre confiam é o menor dos que tem opinião formada. É no mínimo curioso que parcela considerável dos que consideram positivamente o governo do presidente se desloque para Às vezes confia ou mesmo para Nunca confia, que é onde se encontra a maior parcela de opinião.

Avaliação do governo Bolsonaro e de confiança no presidente, em agosto de 2020
Avaliação de Governo Respostas em % Confiança no Presidente Respostas em %
Ótimo / Bom 37 Sempre confia 22
Regular 27 Às vezes confia 35
Ruim / Péssimo 34 Nunca confia 41
Não sabe 01 Não sabe 02
Total em % 100 Total em % 100

O que é possível depreender de tais resultados admitindo que não se constata qualquer problema metodológico grave? Talvez a resposta seja a seguinte: parte do eleitorado consegue enquadrar as questões relativas à responsabilidade de governo em uma moldura razoavelmente estreita e objetiva quanto às ações governamentais que podem ser distintas para cada um (quando não são perguntadas na entrevista) de outra a envolver aspecto ético e moral como é a confiança. Porém, caso este desalinhamento entre avaliação de governo e confiança permaneça mesmo que o presidente se mantenha com boa avaliação de seu governo ou até mesmo o Ótimo / bom suba mais, poderá se tornar um problema para ele na disputa presidencial de 2022 a depender de quem forem seus adversários.

As diferenças entre os resultados às duas perguntas pode ficar mais claro em se analisando por estratos da população nos quais Jair Bolsonaro se sai melhor e nos quais se saiu pior. Grosso modo, o presidente brasileiro conta com mais apoio e simpatia entre a população do sexo masculino, na faixa etária de 35 a 44 anos, vivendo nas regiões Sul, Centro-Oeste/Norte do País, da cor branca e com ocupação seja de empresário como dos profissionais autônomos e correlatos. Cada estrato representa tamanhos distintos no conjunto da população brasileira representada. Mas desejo esclarecer que se sair melhor ou pior nem sempre significa grandes distâncias em relação aos demais estratos.

Acompanhe, então, o desempenho nos estratos onde o chefe do Poder Executivo se sai melhor. Entre os empresários, por exemplo, uma das menores parcelas destra amostra populacional, Bolsonaro obteve 58% do Ótimo / bom (nada menos que 19 pontos percentuais acima do geral), embora conte com 33% de Sempre confia neste mesmo segmento (conquanto maior que o resultado geral de 22%), o qual perde para o Às vezes confia (34%) e fica pouco acima do Nunca confia (31%). Entre a parcela ocupada como Autônomo e profissional liberal ele conseguiu 46% de aprovação (Ótimo / bom), mas recebe somente 30% de Sempre confia, patamar este bem abaixo de quem Nunca confia (36%) nele. Na faixa etária de 35 a 44 anos Bolsonaro obteve 45% de Ótimo / bom de avaliação de governo, mas somente 26% de Sempre confia quando 39% respondem que Às Vezes confiam e 33% Nunca confia. Entre os residentes na Região Sul amealhou 42% de Ótimo / bom e somente 23% de Sempre confia. Pouca diferença ocorre nas regiões Centro-Oeste/ Norte. E, finalmente, na população de cor branca a avaliação Ótimo / bom para Bolsonaro é de 40% enquanto a de modestos 25%, bem abaixo dos 39% que Nunca confia.

E compare os resultados acima com os três grupos onde Bolsonaro se saiu pior. Junto ao sexo feminino, que representa 52,5% da população da amostra, ele reuniu 33% de Ótimo / bom enquanto no resultado geral foi 37%. Mas este mesmo grupo lhe conferiu apenas 26% de Sempre confia enquanto o Não confia é um percentual de 44. Junto aos jovens de 16 a 24 anos, ele conseguiu somente 26% de Ótimo / bom em face de meros 13% de Sempre confia. Com os estudantes Bolsonaro ficou mal. Somente 17% entendem que seu governo é Ótimo / bom e desprezíveis 7% afirmam Sempre confia nele. E na população de cor preta o Ótimo / bom fica em 25% (12 pontos abaixo do resultado geral) e 14% de Sempre confia (oito pontos abaixo do geral).

Por último desejo mostrar os índices de polarização (bipolarização na realidade) que mostram em um número só a força das posições positivas e negativas, o qual é expresso no percentual obtido pela diferença entre a soma dos percentuais extremos (Ótimo/Bom + Péssimo / ruim e Sempre confia + Nunca confia) menos a soma dos percentuais intermediários (Regular e Às vezes confia), excluído os Não sabe, uma vez que são apresentadas quatro possibilidades em cada uma das duas perguntas. Mediante a subtração das opções intermediárias, assegura-se o cômputo das mesmas e ao mesmo tempo lapida a força da polarização evitando confusão uma vez que as opções do meio por vezes são altas e podem gerar equívocos. Com a fórmula empregada, os valores dos extremos se sobressaem uma vez que tais posições são muito marcadas. Os resultados gerais são de 44% na avaliação de governo e de 27% na de confiança, ambos modestos. Mas como estes valores se saem nos estratos? Os resultados são altos na avaliação para os segmentos de nível superior (63%), de quem tem renda de cinco até dez salários mínimos (60%), de mais de 10 salários mínimos (74%) e de empresários (71%). No tocante ao índice de confiança, a polarização praticamente não se verifica em nenhum estrato por dois fatores: 1) os valores de Às Vezes confia oscilam de médio para muito alto; e, 2) uma ou outra posição extrema prevalece.

Tudo isso posto, penso que a descrição dos resultados para além da avaliação geral e com a inclusão da polarização permitem que se imagine um cenário político bem mais difícil do que parece, pois deixa a perspectiva de alta volatilidade e de boa dose de tensão devido a polarização em alguns estratos sociais em um momento no qual a questão dos recursos públicos destinados a mitigar os problemas para a população mais vulnerável sofrerão restrições, e mais as dificuldades da economia e das propostas das reformas tributária e administrativa. Teremos de aguardar.

*RUI TAVARES MALUFProfessor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP). Ex-coordenador da Pós-Graduação em Opinião Pública e Inteligência de Mercado (OPIM) da mesma instituição (2010-2019). Doutor em Ciência Política (USP), mestre em Ciência Política (UNICAMP). Autor dos livros Amadores, Passageiros e Profissionais (2010), e Prefeitos na Mira (2001), ambos pela editora Biruta.


PALAVRAS-CHAVES (TAGs): - PALAVRAS-CHAVES (TAGs): - Avaliação de confiança no presidente Bolsonaro em agosto de 2020, Avaliação do governo do presidente Jair Bolsonaro em agosto de 2020; cientista político Rui Tavares Maluf; índice de polarização, Instituto Datafolha; Levantamento de agosto de 2020; Pesquisa de Opinião Pública; Rui Tavares Maluf


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Artigo disponibilizado em 5 de Julho de 2020

Foto de Rui Tavares Maluf

CONSIDERAÇÕES SOBRE GOVERNO BOLSONARO SEGUNDO DATAFOLHA


Por Rui Tavares Maluf*


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Artigo disponibilizado em 12 de Março de 2018


A JUSTIÇA ELEITORAL E AS PESQUISAS DE INTENÇÃO DE VOTO


Por Rui Tavares Maluf*


A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicada originalmente no Diário da Justiça Eleitoral (DJE) em 5 de março de 2018 (páginas 64 e 65) acrescentando parágrafos ao 23.549/17 do mesmo TSE, bem como o recuo parcial desta mesma decisão por nova decisão tomada pelo órgão no dia 8 de março sugere duas coisas antagônicas, mas ambas com boa dose de consistência: 1) magistrados e setores da sociedade brasileira continuam a ignorar a importância das pesquisas de opinião como parte fundamental de uma sociedade livre e como elemento importante para os cidadãos e agentes de maneira geral formarem suas opiniões por meio de comparações. E assim sendo, imaginam que controlando o que deve ou não ser do interesse da sociedade assegurarão a saúde do regime democrático; 2) Pouca convicção de nossos magistrados em relação ao tema em uma altura da vida democrática do Brasil que não se coaduna mais com tamanha insegurança quanto ao tema.

Acompanhemos o que motivou a dura reação das seguintes entidades tais como Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), Associação Nacional de Jornais (ANJ) e Associação Nacional de Editores de Revista (ANER). A resolução 23.560, que teve como relator o ministro LUIZ FUX, alterou a resolução acima mencionada, acrescentou-lhe dois (2) parágrafos ao artigo 2º, os quais estão abaixo reproduzidos:

-§ 10. Nos questionários aplicados ou a serem aplicados nas pesquisas de opinião pública referidas no caput, são vedadas indagações a respeito de temas não relacionados à eleição,

§ 11. Os questionários referidos no parágrafo anterior não poderão conter afirmação caluniosa, difamatória, injuriosa ou informação sabidamente inverídica, sob pena de suspensão de sua divulgação ou de anotação de esclarecimentos, nos termos do § 1º do art. 16 desta resolução.

O parágrafo 10º já é indicador de uma total impertinência sobre o assunto uma vez que uma eleição se faz sob o signo de um entrecruzamento de assuntos diversos que formam em maior ou menor medida aquilo que interessa aos eleitores. Por exemplo, é tacanho imaginar que a pergunta em quem o(a) senhor(a) votaria para presidente se a eleição fosse hoje? seria suficiente para se conhecer minimamente as motivações do processo de tomada de decisões do eleitor. E tal adjetivo permanece mesmo incluindo outras questões operacionais das eleições. Pergunto: por que seria inadmissível formular questões supostamente estranhas ao processo eleitoral? E na hipótese de outras perguntas serem vistas como inaceitáveis, bastaria aos interessados conhecerem o questionário aplicado (cuja publicidade é obrigatória), verificar a ordem em que as perguntas são apresentadas, e compará-lo ao de outros institutos. Uma vez que inexiste um monopólio do mercado de pesquisa eleitoral no Brasil e países democráticos, conquanto alguns institutos tenham mais recursos econômicos do que outros e realizem levantamentos com mais frequência, a oferta permite o cotejamento da qualidade e consistência das pesquisas realizadas. Acrescente-se a tudo isso que a realização de uma pesquisa é cara e oportunidade para se aproveitar que outros temas possam ser incluídos a fim de tornar seus custos mais razoáveis. Ainda assim, a inclusão de assuntos totalmente exógenos ao processo eleitoral em si mesmo não assegura que o mesmo influenciará respostas relativas ao pleito em questão.

Em relação ao parágrafo 11º é de se indagar a que o parágrafo estaria se aplicando? Caluniosa à pessoa do entrevistado? A determinado(a) político(a)? E mesmo que o questionário inclua questões deploráveis as quais se confundissem com militância política disfarçada de pesquisa a ofensa deveria ser tratada pontualmente. Todo e qualquer instituto que se preze deseja realizar um processo às claras a fim de assegurar um mercado aberto, ou seja, garantir futuros novos clientes. Na medida em que a elaboração de um questionário e sua aplicação não respeitem critérios técnicos de qualidade, o risco de se inviabilizar é muito grande.

Se o TSE tivesse se limitado à publicação original da resolução 23.549 nada de muito importante haveria para ser comentado. Indo além: a própria resolução é quase uma reafirmação do que já está previsto no Código Eleitoral e na lei 9.504/97. Mesmo que seja meritório reconhecer o cancelamento de uma decisão equivocada, o mesmo ministro Luiz Fux admite ao justifica-la que esta gerou “insegurança jurídica” e, ainda, que esta deve voltar a ser discutida com a imprensa e demais setores. As democracias se constituem no regime por excelência no qual o debate é fator importante para o avanço do próprio regime, isto é, de seu aperfeiçoamento. Não obstante, em relação ao assunto desta polêmica, seu conteúdo já havia consolidado avanços que não deveriam ser motivo de alterações sem que mudanças novas na sociedade o justificassem.

*RUI TAVARES MALUF é fundador de Processo & Decisão Consultoria, coordenador de Opinião Pública e Inteligência de Mercado (OPIM), curso de pós graduação na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) onde é professor desde 2006. Doutor em ciência política (USP), mestre em ciência política (UNICAMP) e autor dos livros Amadores, Passageiros e Profissionais (2011), e Prefeitos na Mira (2001), ambos pela editora Biruta.


PALAVRAS-CHAVES (TAGs): - Ministro Luiz Fux; Pesquisa Eleitoral, Questionário, Resolução 23.549; TSE; Tribunal Superior Eleitoral.




Artigo disponibilizado em 16 de outubro de 2017


Métodos e Técnicas em Pesquisa Qualitativa: passos iniciais


por Rui Tavares Maluf

PALAVRAS-CHAVES (TAGs): - Arte, Ciência, Escolha do Método, Mercado internacional, Objeto, Objetivo, Produtos de Beleza Femininos, Problema de Pesquisa, Métodos, Pesquisa Qualitativa, Técnicas, Variável, Variáveis.


Artigo disponibilizado em 9 de outubro de 2017


ÉTICA NA PESQUISA QUALITATIVA


por Rui Tavares Maluf

PALAVRAS-CHAVES (TAGs): - Código de Ética, Conduta, Costumes, Ética, Guia de Boas Práticas, Métodos Qualitativos, Moral, Pesquisa Qualitativa, Técnicas Qualitativa, Tradições






Artigo postado em 22 de Outubro de 2015


SOBRE A DOENÇA DO CONSUMO


Por Rui Tavares Maluf*

Entre o final de setembro e início de outubro de 2015, pesquisadores dos EUA (Universidades de Stanford e Califórnia), Noruega (Universidade de Bergen), e Reino Unido (Universidade de Nothingan Trent) publicaram artigo na revista Frontiers of Psychology no qual divulgam um teste para ser autoaplicável por qualquer pessoa interessada em saber se é dependente de compras. De acordo com as informações divulgadas, o estudo tem sólida base científica. Tal dependência de consumo se caracterizaria pela incapacidade da pessoa em controlar seu impulso de comprar, independentemente de considerar sua necessidade e das condições financeiras para fazer frente aos custos.

Antes de apresentar mais informações sobre o referido teste e de fazer meus comentários, gostaria de destacar o que já é de amplo conhecimento público, a saber, que há longo tempo os debates (especializados ou não) definiram como “consumismo” uma de suas facetas negativas do comportamento do consumidor. Para alguns analistas e cidadãos, o consumismo seria a própria característica do consumo em uma sociedade de livre mercado e capitalista para a qual as vendas não podem parar. A qualificação de consumismo se apoiaria na constatação de que muitos consumidores e, sobretudo os consumidores de sociedades de mais alta renda, comprariam frequentemente sem estabelecer, aparentemente, uma relação clara entre sua necessidade, recursos financeiros, e a decisão tomada. Em outras palavras, tal comportamento não seria racional, e, portanto, seria passível de fácil manipulação pela propaganda. Indo além; em termos agregados o consumismo é a expressão atual do que é tido como ambientalmente insustentável colocando em risco altíssimo a vida em nosso planeta porque grande parte dos bens é formada de mercadorias descartáveis (embora recicláveis, as indústrias não conseguem reciclar uma significativa parte). Assim, o consumismo andaria a braços com o supérfluo, isto é, com a aquisição de um bem ou serviço o qual poderia ser tranquilamente dispensado por não ser realmente necessário. Porém, analistas que fizeram a crítica da crítica apontaram ser questionável definir para cada indivíduo, ou mesmo grupos, um ponto de ruptura entre um comportamento de consumidor atribuído como racional e outro irracional. Entretanto, o consumismo é principalmente um fenômeno sociológico e não uma ferramenta analítica para explicar a ação individual. E o trabalho aqui tratado incide sobre o que é definido como compulsão por compras e catalogado cientificamente como transtorno de impulso (negrito nosso).

Voltando ao trabalho dos pesquisadores. Este se baseou no acompanhamento de 23,5 mil participantes com idades aproximadas de 35 anos. A escolha por pessoas com esta idade talvez esteja amparada no fato de se constituir em um momento de transição de juventude plena para juventude de maturidade (com maior responsabilidade profissional e familiar), mas também com maior poder aquisitivo. Os participantes responderam a perguntas a fim de conhecer seus hábitos de compras, traços de personalidade, autoestima e sintomas de ansiedade e depressão. As questões levaram a produção de um teste com sete frases (vide quadro abaixo), cujas respostas possíveis formam uma variação da conhecida escala de Likert (de cinco a sete possíveis respostas, com a particularidade de que esta só permite quatro) e são as seguintes: 1-discordo; 2-não discordo nem concordo; 3-concordo; 4-concordo completamente.

FRASES DO TESTE PARA O RESPONDENTE MARCAR NA ESCALA A(S) QUE JULGA SE ALINHAREM A SEU COMPORTAMENTO
Assinalar Frase
Você pensa em ir ao shopping ou comprar coisas o tempo todo
Você compra objetos para melhorar o humor
Você compra tanto que isso afeta o cumprimento de suas atividades diárias.
Você sente que precisa comprar mais e mais para obter a mesma satisfação de antes.
Você decidiu comprar menos, mas não foi capaz de fazer isso.
Você se sente mal se por alguma razão é impedido de comprar.
Você compra tanto que isso traz incômodo e prejudica seu bem estar.

Se os resultados derem positivos, ou seja, se os respondentes marcarem na escala as alternativas de “concordo totalmente” ou “concordo” em duas das sete frases (“pensa em comprar o tempo todo” e “compra tanto que compromete as atividades diárias”), ou em quatro das sete (quaisquer que sejam) recomenda-se ao indivíduo procurar um médico. Os males decorrentes desta doença do consumo são bem conhecidos, como, por exemplo, o indivíduo que vende a própria casa para pagar dívidas, etc.

Em reportagem jornalística sobre o trabalho dos pesquisadores, a revista brasileira Isto É (edição de 07/10/2015, matéria escrita pela jornalista Cilene Pereira), ouviu a psiquiatra Fátima Vasconcelos da Associação Brasileira de Psiquiatria, quem explica o mecanismo fisiológico do cérebro. Nestes casos (transtorno de impulso), segundo ela quase sempre há anormalidades nos sistemas cerebrais que regulam a concentração de substâncias como serotonina e dopamina. E, assim, antidepressivos modernos podem ser receitados. “Além disso, a terapia individual e em grupo é recomendada”. Portanto, se a referida profissional está falando em medicação, está subentendido que o transtorno é uma doença.

Segundo os formuladores da pesquisa uma das forças deste teste está em sua simplicidade e consistência, pois o indivíduo descobre por si mesmo como ele se enquadra. Concordo com esta interpretação, porque frases (ou perguntas) embaraçosas costumam ser marcadas (ou respondidas) raramente com a verdade. Poucas pessoas admitem expor-se a terceiros (pesquisadores desconhecidos) nesses casos. Ainda assim, creio que há pelo menos três fragilidades, as quais exponho a seguir: 1) supor que os respondentes solitários não possam ter uma percepção distorcida de seu próprio comportamento; e, 2) não haver uma frase no teste que leve em conta alguma dimensão temporal, isto é, se este comportamento já existia um ano atrás (por exemplo). Em meu julgamento, creio que sem o estímulo de uma frase neste sentido, o respondente fica sem a oportunidade de registrar que talvez seu comportamento seja bem recente, pois não lhe foi perguntado. E se for recente, talvez possa ser passageiro estando associado a algum outro problema. Ademais, o tema desta pesquisa e sua forma de diagnóstico me parecem fortemente segmentados. É de se perguntar se um comportamento impulsivo será igualmente verificado frente a tantas outras coisas que não apenas compras, não sendo propriamente uma doença do consumo. 3) O excesso de compras pode estar ligado a uma vida de vazio interior, com poucos valores sólidos, situação esta que pode ser decorrente de uma deficiência no tecido familiar e da própria formação que lhe foi transmitida. Estaria mais para uma “doença” social do que individual.

Finalmente, o teste parece não ser tão novo assim. No primeiro semestre de 2014, o Hospital das Clínicas em São Paulo, junto com o Serasa-Experian, divulgava teste muito semelhante, e, ao mesmo tempo parecia entender que este impulso poderia ser evitado ou prevenido mediante educação financeira das pessoas. Nesta abordagem, parte-se do princípio que o lado negativo do consumo reside na falta de consciência de suas necessidades pessoais (íntimas) e de suas possibilidades materiais para efetivá-lo. Talvez o que seja novo (embora eu não tenha certeza), sejam os cuidados para que este instrumento combine facilidade para o usuário com consistência científica.

Finalmente, há toda uma nova área do conhecimento que cresce velozmente, a neurociência (com aplicação para o marketing e tantas outras áreas) a qual traz importantes descobertas de como nosso cérebro funciona biologicamente frente aos estímulos externos (ou mesmo de outra natureza). Muitas de suas conclusões (ainda que me pareçam ainda cheia de ressalvas) sugerem que muitos elementos biológicos (ou inconscientes) não implicam necessariamente em comportamentos equivocados, mesmo ao fazermos compras. Em outras palavras; alguma dimensão da biologia de nosso cérebro participará (influenciará) em maior ou menor medida o processo de compra.

*Rui Tavares Maluf é diretor de Processo & Decisão Consultoria, coordenador do curso de Pós Graduação de Opinião Pública e Inteligência de Mercado (OPIM) da Fundação Escola de Sociologia e Politica de São Paulo (FESPSP). Doutor em Ciência Politica (USP) e Mestre em Ciência Politica (UNICAMP)

TAGs: Comportamento do Consumidor; Doença do Consumo; Comportamento do Consumidor; Escala de Likert; Hospital das Clínicas; Serasa-Experian; Teste; Transtorno de Impulso



Artigo postado em 23 de Julho de 2015


PESQUISAS DE OPINIÃO INFLUENCIAM, AINDA BEM!


Por Rui Tavares Maluf*

Sim, em geral a publicação de pesquisas pode influenciar o comportamento dos indivíduos nos mais diferentes assuntos, incluída neste rol as pesquisas de opinião pública de caráter eleitoral. Mas tal constatação não se constitui em um argumento válido para que as pesquisas de intenção de voto sejam vedadas às vésperas das eleições como pretendem alguns senadores sob o argumento de que o eleitorado “gosta de votar em quem está na frente”, deixando em segundo plano, ou não se importando, com suas propostas e caráter. Primeiramente, o princípio da liberdade de informação está claramente previsto na Constituição Federal do Brasil (vide, por exemplo, o artigo 5º inciso XIV, o qual assevera que “é assegurado a todos o acesso à informação” como também o 220º para o qual “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”). Mas se o que consta na Carta Magna não é motivo forte para que tais parlamentares se inibam em levar adiante tal empreendimento de retrocesso ao regime democrático, faz-se necessário mostrar com contundência a fragilidade deste argumento.

Vale destacar que o argumento dos defensores da proibição é outra forma destes parlamentares dizerem que a opinião pública é frágil, suscetível às manipulações. Ora, o comportamento eleitoral em questão tende a ser muito mais a expressão de setores muito frágeis da sociedade, carentes de vários bens materiais e culturais, para os quais votar em quem está na frente poderia ser um ideia atraente desconsiderando propostas, consistência das mesmas e credibilidade dos postulantes. O problema desta questão, afora a afronta a questão do princípio, é que exatamente por vivermos em um regime democrático dispomos de mais de um instituto de pesquisa trabalhando (frequentemente com mais de uma metodologia) os quais (não raras vezes) apresentam resultados discrepantes em relação às taxas de intenção de voto e às posições. E, além disso, os resultados oficiais das eleições também divergem certas vezes das pesquisas de intenção de voto realizadas nas últimas horas antes do pleito como também das de boca de urna. Talvez a ideia de proibir a divulgação de pesquisas a fim de evitar sua influência seria mais difícil de resistir caso existisse apenas um instituto de pesquisa onipotente (vale recordar que se fossemos considerar só grandes institutos de pesquisas temos atualmente ao menos quatro (Ibope, Datafolha, Ipsos, Sensus), divulgando resultados para um único tipo de eleitor (considerado manipulável e insensível a outras formas de persuasão). Além dos grandes, existem vários de porte médio e pequenos que são divulgados pelo conjunto dos meios de comunicação (especialmente fora dos grandes centros). A possibilidade de divulgação de pesquisas de intenção de voto em todo o processo eleitoral estimula maior concorrência na formação de opinião pública como também atenua a força do poder econômico e de oligarquias políticas.

É oportuno, ainda, considerar que o eleitorado “frágil” também pode ser suscetível a formas supostamente mais eficazes e diretas de condução do voto, como, por exemplo, a abordagem direta por meio de trocas materiais a qual já é tão conhecida de nós brasileiros e de todos os países que apresentam elevados níveis de desigualdade social. Por outro lado, não é difícil imaginar que as pesquisas também influenciam um eleitorado “forte” no qual acredito me incluir. E o que quer dizer isso exatamente? Que eu levo conscientemente em consideração o resultados de pesquisas como um elemento de minha tomada de decisão, porque meu voto como o de muitos outros eleitores “fortes” entendem relevante a comparação não só de propostas e representação de interesses, mas como estas podem melhor se expressar no contexto da disputa eleitoral.

Além disso, os defensores da proibição se esquecem de que toda influência tende a operar em dois sentidos (até mesmo diametralmente opostos), ainda que não exatamente em iguais proporções. Por um lado, pode reforçar a posição de quem aparece na frente, mas também pode servir de alerta para não se votar em que está no primeiro lugar, pois este postulante “já ganhou” e o eleitor deseja votar naquele com quem se identifica mais, ou por motivo diametralmente oposto não deseja de forma alguma a vitória de quem está em primeiro lugar. Esta última afirmação (por contraditória que seja com a primeira) costuma ser chamada de “voto útil” e também já foi condenada por estes mesmos parlamentares, pois também ignoraria o conteúdo dos candidatos e de suas propostas.

Ainda que a realidade fosse tão simples como o exemplo apontado acima, as pesquisas (mesmo se as tratássemos no singular) se constituiriam somente em mais um fator de formação de opinião dentre vários que concorrem para isto (os próprios candidatos, seus partidos, adversários, a propaganda institucionalizada, os jornais em suas diferentes modalidades, amigos, conhecidos etc).

A despeito de os postuladores da proibição invocarem a divulgação de pesquisas como causa única ou determinante do comportamento, há que se ressaltar a constatação óbvia de que grande parte do eleitorado pouco ou nada se interessa (ao menos não em profundidade e/ou regularmente) pela vida pública do Brasil (o que não é tão diferente em muitos outros países) tratando-a como dado de reles importância. Porém, melhorar a qualidade da educação e do desenvolvimento brasileiro de forma geral, bem como contar com autoridades públicas que deem bons e continuados exemplos de virtude, talvez tenha alguma eficácia sobre a cidadania, aumentando sua atenção e interesse. De qualquer forma, é do próprio regime democrático reconhecer o direito dos indivíduos se colocarem à margem do debate das ideias e interesses por diferentes razões (negativas e positivas) conquanto isso possa ser entendido por muitos analistas como prejudicial à própria preservação da democracia. Como é do próprio regime democrático oferecer uma pluralidade de meios de formação de opinião pública.

*Rui Tavares Maluf é diretor de Processo & Decisão Consultoria, coordenador do curso de Pós Graduação de Opinião Pública e Inteligência de Mercado (OPIM) da Fundação Escola de Sociologia e Politica de São Paulo (FESPSP). Doutor em Ciência Politica (USP) e Mestre em Ciência Politica (UNICAMP)

TAGs: Pesquisa; Pesquisas de intenção de voto; Proibição de Pesquisas; Senado Federal; Senadores; Veto as Pesquisas.



Artigo postado em 25 de Julho de 2014


CONFIANÇA NAS INSTITUIÇÕES:

OS RANKINGS SERVEM PARA ALGUMA COISA?

Por Rui Tavares Maluf*

Em 21 de julho de 2014, como ocorre à mesma época há muitos anos, a direção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) divulgou pesquisa encomendada ao instituto Datafolha a fim de medir junto a população brasileira a avaliação que esta faz de diversas instituições. O produto final e divulgado à sociedade no dia mencionado só trouxe informações gerais sobre a metodologia empregada em campo, qual seja, que foram ouvidas 2126 pessoas em 134 municípios do Brasil, com um intervalo de confiança de 95% e margem de erro de 2 pontos percentuais. Não foi informado, por exemplo, se as questões foram espontâneas e/ou estimuladas, com apenas uma resposta possível, ou mútlipla, algo muito relevante para a eficácia da análise. O relatório geral da pesquisa não foi divulgado, mas tão somente a ordem de classificação das instituições que foram avaliadas. É um procedimento que parte do princípio que o público receptor da informação veiculada está satisfeito com o que lhe é apresentado sem se importar em saber como a pesquisa foi produzida. Nos resultados gerais, as três principais instituições mais bem avaliadas são as Forças Armadas, a Polícia Federal , e a própria contratante do serviço OAB ( veja ranking geral ao final do artigo). De acordo com a própria direção da OAB, a instituição passa ao primeiro lugar quando leva-se em conta somente os respondentes que afirmam conhecer a instiuição. Assim, seu percentual de preferência vai a 72% contra 70% da Polícia Federal e das Forças Armadas. É surpreendente que a OAB apareça mesmo em terceiro lugar considerando respostas de um público que não a conhece. Seria muito relevante saber qual é o tamanho da parcela dos entrevistados que afirma conhecê-la. Só assim o ranking faz algum sentido.

Além do que escrevi acima, é importante saber se a lista de posições (ranking) foi estabelecida somente com base nos percentuais de respondentes apontando para as opções disponíveis em uma cartela (uma ou mais) das instituições que aprova, ou (além disso) incluindo alguma pontuação (nota). O grau de conhecimento faz toda a diferença na possibilidade de comparação de coisas tão diferentes como Forças Armadas e Igreja Católica e Bancos e Financeiras. Aliás, a Igreja Católica é uma entidade multinacional. Portanto, se a pergunta formulada não especifica que se está querendo saber da instituição no Brasil, não há como compará-la, uma vez que muito de problemas de credibilidade e popularidade por esta enfrentados nos últimos tempos se deve, provavelmente, a casos de pedofilia ocorridos em igrejas dos EUA e da Irlanda, os quais são divulgados mundialmente. O nível de conhecimento já é relevante em se tratando de elementos comparáveis por si mesmo como são os candidatos concorrendo à um cargo público. Torna-se imprescindível quando a comparação é realizada com instituições muito distintas por sua própria natureza. Na disputa de um cargo público como o de presidente da República, todos nós brasileiros entre 16 anos e 70 anos, gozando de nossos direitos civis, isto é, somos parte de um só público conquanto apresentando especificidades. Tal situação não ocorre quando uma amostra da população brasileira é entrevistada para se manifestar sobre instituições muito diferentes, várias das quais não lhe dizem qualquer respeito, mesmo que o(a) entrevistado(a) já tenha ouvido falar da mesma.

Feitas as primeiras observações, pergunto ao leitor: qual é o grau de conhecimento do entrevistado sobre cada uma das instituições que foram listadas? Parece que só a direção do Datafolha e a direção da OAB tem conhecimento. Outra pergunta: o que a direção da entidade faz com tais resultados? Orienta sua ação com base nos mesmos? Depende de que ação estaria em questão. Sendo uma ação macro para efeito de prestígio político junto a sociedade brasileira ou mesmo de segmentos, é possível que os resultados possam contribuir. Mas seguramente tem pouca ou nenhuma serventia se estivermos pensando em foco das ações de trabalho da entidade. Menos serventia e mais problema ainda, se alguém quiser fazer a interpretação dos problemas sociais que geraram as diferentes manifestações públicas deste pouco mais de um ano com base nos resultados.

É possível observar que as instituições mais bem posicionadas na lista coincidem com aquelas que pouco ou nada tem a ver com o mundo da política e da economia, dimensões estas as quais por suas próprias naturezas são mais conflitivas e, consequentemente mais desgastantes perante a opinião pública. Finalmente, gostaria de afirmar que se a OAB disponibilizasse toda a pesquisa para o público (incluindo sua metodologia e operacionalização), seria possível a todos os que analisamos pesquisas mitigar (talvez) um pouco as mazelas que me parecem grandes nesse trabalho.

RANKING DE CONFIANÇA NAS INSTITUIÇÕES

  1. Forças Armadas

  2. Polícia Federal

  3. OAB

  4. Igreja Católica

  5. Poder Judiciário

  6. Imprensa e Ministério Público

  7. Sindicato dos Trabalhadores

  8. Bancos e Financeiras

  9. Empresas Estatais

  10. Presidência da República

  11. Igreja Universal do Reino de Deus

  12. Congresso Nacional

  13. Partidos Políticos

    1. *RUI TAVARES MALUF é sócio-diretor de Processo & Decisão Consultoria (P&D), professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP), coordenador do curso de Pós Graduação Opinião Pública e Inteligência de Mercado (OPIM) da FESP, doutor em ciência política (USP) e mestre em ciência política (UNICAMP).

      TAGs: - Ordem dos Advogados do Brasil, OAB, Datafolha, Instituto Datafolha, Pesquisa de Avaliação, Instituições, Instituições mais Confiáveis, Forças Armadas, Polícia Federal, Congresso Nacional, Partidos Políticos.


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      Artigo postado em 27 de Março de 2014


      Meio Digital:

      Uma reflexão sobre seu Impacto no comportamento

      do Cidadão e do Consumidor

      Por Rui Tavares Maluf*

      A evolução dos meios de comunicação está indissoluvelmente ligada a impactos sobre o comportamento humano seja em sua individualidade quanto em sua sociabilidade (válida tal afirmação tanto para os meios de massa quanto os individualizados). O desenvolvimento tecnológico não fica limitado a si próprio, mas repercute sobre o pensar e agir dos indivíduos e sociedade. Por mais que alguns desses meios tenham sido empregados com o propósito de sujeitar os comportamentos sociais às conveniências de quem gerasse e emitisse a informação, é possível admitir que a tendência desses meios em longo prazo tenha sido a de promover a liberdade de escolha das pessoas devido à sua característica descentralizadora. A faceta negativa de tais meios de comunicação esteve mais no controle político e legal sobre os meios do que em sua existência, como também na demora de muitos países em melhorar as condições de vida de largas parcelas da população com baixa renda, e, sobretudo, baixa escolaridade, as quais se tornam mais vulneráveis a qualquer tipo de propaganda regular.

      Muitos estudiosos rejeitam a posição que expresso acima lembrando a ascensão do nazismo na Alemanha na década de 30 do século passado, uma sociedade reconhecida como altamente instruída e com rica vida cultural. Tanto a chegado ao poder quanto sua manutenção ocorreram por meio de uma propaganda de ódio racial e com alta eficácia sobre os alemães de maneira geral. Porém, tanto uma quanto outra (ascensão ao poder e eficácia da propaganda) podem ser explicadas pela combinação de um regime político altamente repressivo sem qualquer respeito à liberdade de pensamento e de expressão, o qual concentrou totalmente os meios de comunicação nas mãos do Estado e do Partido Nazista. Ou seja, rádio, filme, livros, revistas e jornais foram meios integralmente orientados para obter a adesão da população ao regime. Creio que os meios foram muito mais reforçadores de tendências e pré-disposições encontradas em várias partes da sociedade do que geradores de comportamentos. Para além de um regime totalitário rapidamente implantado após os nazistas ascenderem ao poder em 1933 submetendo os meios de comunicação, destaque-se que isso foi possível em consequência de vários erros políticos do governo do período anterior (conhecido como o da República de Weimar) e dos partidos políticos não nazistas, facilitando, assim, o caminho de Adolf Hitler e dos seus seguidores ao poder.

      Em relação ao comportamento do consumidor, é discutível a sujeição deste aos interesses econômicos dos agentes que detiveram o uso generalizado desses meios de comunicação, especialmente em se tratando de sociedades sob o funcionamento de sistemas políticos democráticos. Quase sempre estas sociedades de regimes democráticos também apresentavam maior nível educacional e de renda de sua população. Por conseguinte, por mais que as práticas comerciais e a publicidade veiculada por estes meios possam ter gerado um mal social em muitas situações, é indiscutível que vários movimentos culturais contrários à ordem vigente e de defesa do consumidor surgiram para apontar abusos, propor novas regras, e alertar os cidadãos para os perigos que estaria correndo (mesmo quando a própria crítica pudesse não ser verdadeira). E tais movimentos só puderam ter algum êxito, pois os meios de comunicação também se abriram às suas ideias e manifestações. Ademais, as leis e até mesmo constituições, como a do Brasil, preveem que o Estado “promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor” (artigo 5º, inciso XXXII da CF), além de que esta defesa é um dos princípios e finalidades de uma econômica “fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa” (artigo 170, inciso V).

      Em outras palavras, nos países cujos regimes políticos asseguraram a liberdade de expressão e organização dos cidadãos, os meios sempre contaram com alguma participação ou reação do público às programações em geral, ainda que mínimas. Reações populares persistentemente ruins às mensagens transmitidas nas comunicações, mesmo que pautadas por interesses legítimos, dificilmente sobreviveriam muito tempo, sem que alguma revisão tivesse de ser feita. Conquanto a sentença “Sua Excelência o Consumidor” possa ser vista como um eufemismo, não é rigorosamente inverídica nessas sociedades ao menos para lembrar que as empresas produtoras de bens e serviços não estão livres de serem duramente questionadas quanto ao que entregam aos clientes, sobretudo quando o que entregam está muito dissociado do que prometem em sua publicidade. No entanto, é preciso estabelecer diferenças nas relações envolvendo o consumidor, as quais precisam considerar empresas em geral de empresas concessionárias de serviços públicos e consumidor intermediário do consumidor final. O reconhecimento de tais diferenças se presta a compreendermos a complexidade deste universo, especialmente sob o impacto do meio digital. As concessionárias ficam sujeitas aos contratos estabelecidos com o Estado por período determinado e sob muitos parâmetros, enquanto o consumidor final é sempre aquele que se confunde com o cidadão e, consequentemente, com a opinião pública.

      Porém, a despeito de minha avaliação positiva dos meios de comunicação reconheço a existência de importantes diferenças dos próprios meios ao longo da história como facilitadores de relações portadoras de variados níveis de qualidade. Impressos (Panfletos, Jornais, Revistas), Telégrafo com fio, Telégrafo sem fio, Telefone, Cinema, Rádio e Televisão, pela ordem de seu aparecimento histórico, se caracterizaram como meios quase unidirecionais (dos produtores para os cidadãos e consumidores), enquanto a Internet, em quase todas suas plataformas, é interativa por sua própria constituição, interação esta que se faz de forma quase imediata e sem limitações de espaço geográfico desde que se conte com a infraestrutura. Além de propiciar a interatividade, o meio digital está integralmente associado às redes sociais, as quais são assim reconhecidas por representarem alguma força social no cenário mais pessimista em consequência de uma identidade comum. Em outras palavras, alguma comunicação percebida pelos usuários como ilegítima, desonesta (ainda que não seja), será repelida quase de pronto.

      Diante do que expus acima, entendo consistente a ideia contemporânea segundo a qual propaganda e marketing para serem eficazes precisam efetivamente compreender os consumidores e cidadãos em suas particularidades e complexidades não podendo ser encarados como uma coisa uniforme. E é exatamente por esta segmentação e diferenciação da sociedade, que nem sempre esta reagirá da forma como alguns analistas imaginam que ela deva reagir frente a supostos e verdadeiros abusos. Por outro lado, quando se pensa estritamente na propaganda política em um país como o Brasil, há de se ter presente que rádio e televisão (não considero aqui os jornais, mas eventualmente panfletos) continuarão apresentando um papel importante (relativamente menor e mais dividido com o mundo digital). O rádio e a televisão tendem a operar mais sobre um eleitorado fora da mídia digital, ou a esta ligada por conexões de baixíssima duração.

      Porém, reconheço que analistas da política em geral relutam ou mesmo rejeitam comparar o cidadão ao consumidor, pois este último termo está indissoluvelmente ligado a uma relação econômica, mercantil. Contudo, o cidadão é também consumidor e dispõe de direitos nessa área, e, por outro lado, o conceito de consumidor não se reduz a sua dimensão do mercado, conquanto com este se confunda, relacionando-se a muitos atos que podem não depender estritamente da relação mercantil. Pode-se consumir uma fruta extraída diretamente de uma árvore localizada em um espaço público ou tomar água de uma fonte pública, entre outros possíveis exemplos. Mas, é exatamente na condição do consumidor inserido em uma relação mercantil, que se deve pensar na sua relação com a de cidadão, pois em um sistema econômico desenvolvido o qual na maior parte das vezes se encontra sob um regime político democrático, o consumidor e os agentes econômicos que lhe propiciam o consumo estão balizados tanto por uma legislação que assegura direitos ao consumidor e obrigações aos agentes, como por comportamentos que podem castigar ou incentivar práticas mercantis não aceitas. No entanto, há países que vem se desenvolvendo economicamente nas últimas décadas, mas vivem sob regimes políticos autoritários, como é o caso da República Popular da China. Contudo, este país passou a introduzir certas liberdades civis como a de possibilitar seus cidadãos viajarem a turismo, sem o que a própria possibilidade de desenvolvimento econômico estaria comprometida. Esta e outras franquias relacionadas ao consumidor vão abrindo determinadas fissuras no regime autoritário, pois questionamentos políticos e clamores pela democratização já são conhecidos fora desse país em decorrência destas próprias alterações. Mesmo que eu não possa fazer previsões sobre o futuro do sistema político chinês, dificilmente este poderá retroceder em algumas dessas liberdades mantendo concomitantemente o desenvolvimento econômico.

      Sobre a relação entre o meio digital e o seu impacto social e político, é oportuno acompanhar a explicação de um alto executivo da área, o atual presidente do Twitter, Dick Costolo(1), para quem esta plataforma tem um caráter libertador (declaração extraída de entrevista concedida ao repórter Filipe Vilicic, Revista Veja, edição de 22.01.14).

      “Somos compelidos a escrever na Internet sobre os momentos que nos fascinam. Às vezes esse acontecimento é um programa de TV. Em outra situação são protestos contra o governo (...) é uma via de mão dupla, pela qual os reprimidos se expressam, ganham voz mesmo em países submetidos à censura, enquanto outros passam a ouví-los”.

      Em outra passagem, ele é ainda mais incisivo:

      ”(...) quanto mais um indivíduo vê outro escrevendo o que pensa no universo virtual, mais se sente motivado fazer o mesmo (...). Acredito (...) que essa característica, já não se restringe ao mundo on-line. Observo que afetou também o off-line, onde nós passamos a ter mais desenvoltura para falar sobre o que pensamos”.

      Pode haver exagero nas respostas de Costolo, porém é um fato que por intermédio desse novo meio há muito mais horizontalidade nas relações humanas atingindo várias partes do sistema econômico. Em outras palavras, o meio digital contribui para que o saldo de mais de um século de meios de comunicação tecnologicamente avançados seja realmente positivo.


      *RUI TAVARES MALUF é sócio-diretor de Processo & Decisão Consultoria (P&D), professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP), coordenador do curso de Pós Graduação Opinião Pública e Inteligência de Mercado (OPIM) da FESP, doutor em ciência política (USP) e mestre em ciência política (UNICAMP).

      (1)- Dick Costolo deixou a presidência do Twitter no final de setembro de 2015, sendo substituído por Jack Dorsey, segundo informou a Agência Reuters (OESP, 14.10.15)

      TAGs: Alemanha, Brasil, Cinema, Meio Digital, Cidadão, Comportamento, Consumidor, Constituição, Democracia, Direito do Consumidor, Dick Costolo, Jornal Impresso, Liberdade, Nazismo, Partido Nazista, Rádio, República de Weimar, Revista Veja, Rui Tavares Maluf, Telégrafo, Televisão, Twitter.


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      Artigo postado em 12 de Dezembro de 2013

      NEUROCIÊNCIA E COMPORTAMENTO ELEITORAL

      Por Rui Tavares Maluf*

      A neurociência vem penetrando aos poucos na política brasileira e também na de muitos países sob regimes democráticos e dispondo de economias complexas com eleitorados igualmente complexos com o propósito de subsidiar os candidatos mediante o conhecimento do funcionamento do cérebro dos eleitores frente à exposição da campanha. Esse processo se inscreve em um movimento maior no qual a neurociência também já está sendo adotada na atividade de marketing de maneira geral, situação que levou à cunhagem do termo neuromarketing. Ou seja, ainda que a própria neurociência tenha muito que avançar na pesquisa voltada para interesse propriamente acadêmico e para a saúde mental e física, seu desenvolvimento tem extrapolado para diferentes campos econômicos e políticos. Vale, portanto, fazer a seguinte pergunta: será que tal uso não se restringe a interesse meramente comercial prometendo para seus clientes alguma coisa que não conseguirá cumprir?

      A resposta será negativa a depender do que se lê recentemente na imprensa brasileira a qual tem trazido as eleições gerais de 2014 para suas pautas principais. E nessa direção, tem servido como exemplo a eleição de 2010 em primeiro turno do atual governador de Pernambuco, Eduardo Campos PSB, por larga vantagem de votos sobre o veterano político senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), ex-governador do estado, e figura muito popular. Compreensível citá-lo por ser candidato a presidente da República nas próximas eleições. A neurociência teria permitido que ele conhecesse a reação dos eleitores aos ataques desferidos por Jarbas ao candidato Eduardo Campos e revelado que a reação dos seus cérebros era negativa a esses ataques tendo função oposta à por ele pretendida. Os eleitores tenderiam a se identificar mais com Campos que teria adotado um discurso propositivo destacando o que pretendia fazer e sem entrar em polêmica com seu adversário (atualmente mais um aliado seu).

      A neurociência também teria ajudado a revelar que a ideologia conta pouquíssimo para o comportamento do eleitorado, o qual está muito mais propenso a se deixar levar por apelos que mexam positivamente com suas emoções. Não que isso seja dito e assumido pelos eleitores. Afinal de contas, neurociência não é pesquisa de opinião. O interessante é que se verificaria uma dissonância entre o que a pessoa racionaliza (ou apenas verbaliza) e como ela efetivamente se comporta. Bem, é importante afirmar que tal conhecimento não é novo e nem trazido somente pelas mãos da neurociência. Pesquisas qualitativas com base em entrevistas em profundidade (entre outros métodos) há mais tempo empregadas nos EUA e também no Brasil já revelavam isso.

      Certamente a neurociência é uma ferramenta a mais para o estudo do comportamento eleitoral, como o próprio marketing político já veio demonstrando sua diferença em competições quando este ainda não dispunha de tal recurso. Entretanto, a abordagem do assunto nos parece prenha de simplificações. Por exemplo: o diminuto peso da ideologia na decisão dos eleitores não é conhecimento nada novo; nem mesmo no Brasil. E é compreensível, pois tal como disseminada em mais de um século de confronto entre as ideologias marxista, liberal, conservadora, etc., estas se forjaram em uma concepção macro das sociedades e com um nível de organização e fundamentação diferente das contemporâneas. Porém, ideologia não é a mesma coisa do que propostas e programas de campanha (conquanto guarde relação) e não se pode cair no reducionismo de imaginar que a rarefeita presença da ideologia no comportamento eleitoral quer dizer ausência do uso da razão do eleitor em como decidirá seu voto. É sabido que à exceção dos próprios políticos e especialistas (e quem sabe até mesmo eles) são poucas as pessoas que prestam atenção em todo o processo político e mesmo no eleitoral, pois isso consome tempo e, além disso, as articulações dos muitos acontecimentos com as conjunturas políticas, sociais e econômicas vividas são difíceis de serem apreendidas.

      No Brasil, em particular, pode-se afirmar sem grande dificuldade que há uma baixa politização da sociedade, e esta se dá em grande medida em torno de pessoas; isto é, a personalização da política. Gosta-se ou não de fulano ou de fulana em decorrência de como trata de certos assuntos e como é seu gestual e sua aparência. E tal característica parece muito relacionada ao próprio nível de escolaridade (como da qualidade da escolaridade) e cultural da nossa sociedade. Na medida em que a sociedade se desenvolve aumentará igualmente sua capacidade de reduzir o peso da pessoa em razão inversa ao incremento de questões mais gerais. Ainda assim, há, presumo, um limite a se atingir e nesse sentido a neurociência revela uma série de aspectos comuns ao ser humano, muito embora nenhum desses possa ser rigorosamente compreendido descolando-os de seu meio ambiente atual e passado. Em consequência, entendo impossível que a neurociência possa ter qualquer serventia na política como em vários outros campos comportamentais sem que saibamos fazer as perguntas adequadas para os problemas que desejamos solucionar e como interpretar respostas sobre o que queremos e precisamos saber. Exemplo: respostas cerebrais negativas aos ataques do então candidato Jarbas Vasconcelos ao seu oponente Eduardo Campos se converteriam em uma passagem simples e direta a favor de Campos? Como transformar a detecção de uma reação negativa em alguma coisa direcionada a favor do outro? É preciso mobilizar outros conhecimentos, valer-se de outros aportes que não simplesmente a informação fornecida pelo cérebro. No caso específico aqui comentado, é muito provável que a reação de tais cérebros se constituísse em uma amostra de uma faixa do eleitorado, ainda que muito grande. Se todos fossem exatamente iguais, o resultado teria sido de 100% para Campos. Tomando-se à frio a forma como algumas matérias jornalísticas divulgam a aplicação da neurociência à política, a resposta à pergunta que formulei no primeiro parágrafo seria positiva.

      Para tornar esse tema um pouco mais complexo, é relevante lembrarmos que tal como a disseminação do marketing político e eleitoral se deu aos poucos e acompanhando a própria retomada (ou início) da vida democrática, na medida em que a neurociência se generalizar como ferramenta desse mesmo marketing político, a diferença entre os partidos e seus candidatos estará menos na ferramenta utilizada e muito mais nas habilidades de quem as utiliza combinando-a com outras abordagens e recursos.

      Com o uso da neurociência surge, também, outra questão de fundo para os pesquisadores dos comportamentos econômico e político. Haverá uma forma superior de pesquisa? Primeiramente, a de opinião pública lida quase sempre com uma intenção declarada oralmente e/ou por indicação gestual de alguma coisa a se dar no futuro. A neurociência (e outras pesquisas) trata por sua vez de uma parte do comportamento humano no plano cerebral, que é sua parte vital, a qual dispensa as elaborações discursivas e reflexivas. Ainda assim, tal qual a pesquisa de opinião, a neurociência também está sendo empregada com caráter antecipatório para uma decisão que será efetivada somente daqui a algum tempo, pois o cidadão eleitor está conectado para que seu funcionamento cerebral seja observado agora. Porém, a neurociência trataria com fatos, com objetividade, ao contrário das de intenções (subjetividade). Sendo este uso da neurociência empregado para alguma coisa que se dará no futuro, ainda que várias rodadas sejam realizadas o mais próximo possível do dia das eleições, elas não seguirão os eleitores até as urnas.

      Finalmente, o interessante das diferentes pesquisas que procuram conhecer o comportamento do eleitor é que nenhuma delas poderá superar o lapso de tempo de algumas horas entre os mais recentes resultados e o momento em que os eleitores teclam seus votos. Nesse sentido, a neurociência e as demais pesquisas qualitativas e quantitativas de intenção de voto estão na mesma situação. Pessoalmente, acredito que a neurociência adentrará fortemente nas campanhas eleitorais em breve, porém entendo que sua contribuição maior para a política se dará na formulação e avaliação de políticas públicas. O também mencionado caso pela imprensa do emprego dela na ajuda da campanha da travessia segura de pedestres no município de São Paulo é um exemplo disso. Porém, nada substituirá as ideias, interesses e os próprios políticos. De qualquer forma, que a neurociência aplicada às eleições seja bem vinda.

      RUI TAVARES MALUF é sócio-diretor de Processo & Decisão Consultoria (P&D), professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP), doutor em ciência política (USP) e mestre em ciência política (UNICAMP).

      TAGs: Neurociência; Neuromarketing; Comportamento Eleitoral; Brasil; Eleições Gerais; 2014; Pesquisas de Intenção de Voto; Pesquisa de Opinião; Eduardo Campos; Jarbas Vasconcelos; Pernambuco; analista político; cientista político; Rui Tavares Maluf





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      Artigo postado em 27 de Janeiro de 2012


      Rui Tavares Maluf

      PESQUISAS DE OPINIÃO PÚBLICA E DE MERCADO:

      DIFERENÇAS REAIS OU DE CONVENIÊNCIA?

      Por Rui Tavares Maluf*

      O mercado e a academia se encarregaram de diferenciar a pesquisa de opinião pública da pesquisa de mercado sem necessariamente ter a intenção de fazê-la, mas tal diferenciação se sustenta somente como a preferência pela área da atuação profissional dos indivíduos do que em uma diferença substantiva entre as duas formas de gerar conhecimentos. Enquanto a diferença for entendida apenas como uma afinidade, entendo que não há reparo a ser feito. No entanto, é fácil observar que alguns dos que pretendem estabelecer uma profunda desigualdade acreditam na superioridade moral de uma sobre a outra (particularmente dentre os que se filiam à corrente da opinião pública). No entendimento destes (que na academia se encontram geralmente ligados aos cursos de ciências sociais), é como se a pesquisa de opinião pública estivesse ligada basicamente às atividades públicas, fora das relações de mercado, e, consequentemente, estivesse orientada por princípios e práticas científicas visando o bem da sociedade, enquanto a segunda se pautasse pelas relações típicas do mercado e as suas regras se estribassem nos interesses econômicos, fazendo com que seus resultados sejam entendidos como mercadorias, as quais, por sua vez, são negociadas de acordo com o desejo do cliente, e assim produziriam uma “verdade de conveniência para o cliente”. Em tal divisão de um suposto bem da sociedade contra o mal, os profissionais da pesquisa de mercado seriam aqueles com formação acadêmica nas graduações de marketing, administração, e economia, e os de opinião pública em ciências sociais, e jornalismo com especialização prática em política.

      Frente a tal raciocínio (sem qualquer sustentação real em boas pesquisas), é oportuno recordar antes de qualquer outra consideração, que é muito comum a tentativa de desacreditar as pesquisas de opinião pública, especialmente as de intenção de voto, dizendo que as mesmas são feitas (e divulgadas) com segundos interesses, isto é, com objetivos associados aos das candidaturas e/ou a grupos específicos da sociedade que se beneficiariam ou prejudicariam com determinados resultados. Tal comportamento fica mais fácil de ser observado quando as pesquisas de intenção de voto erram seus prognósticos em relação aos vencedores apontados em valor acima de uma margem acima do erro tolerável, e quando levantamentos foram sucessivamente realizados durante a campanha e tornados públicos com a apresentação de um mesmo líder, tornando-o “favorito” na disputa. É evidente a existência cada vez maior de pesquisas probabilísticas realizadas a mando de candidaturas e apressadamente divulgadas ao público quando favoráveis ao cliente sem que muitas vezes se conheça a metodologia que a fundamente e nem quem a financia. Contudo, tal responsabilidade é em boa medida dos jornalistas que passam adiante o que lhes foi enviado pelas assessorias e, raramente, se preocupam em divulgar com detalhes os aspectos técnicos da mesma, detendo-se superficialmente no resumo dos seus resultados. Não precisaria ser assim, pois a legislação atual obriga que os institutos de pesquisa registrem nos tribunais eleitorais em lugar público como a mesma está metodologicamente estruturada e quem é o contratante. Também é conveniente ressaltar que a pesquisa de opinião pública na medida em que é formulada e executada por institutos privados (muitas vezes contratada também por empresas privadas) passa a ser de mercado, independentemente de seu objeto. Tanto a classificada como de opinião pública pode atender às necessidades de mercado, como a pesquisa de mercado pode contribuir para a compreensão de aspectos observados pela pesquisa de opinião. Vamos aos exemplos. Uma pesquisa de opinião pública pode medir como os consumidores (que não deixam de ser cidadãos) avaliam os serviços de atendimento aos cidadãos (SACs) quando necessitaram a estes recorrer dentre as empresas com as quais são clientes regulares. Ainda que tais organizações pesquisadas sejam privadas (concessionárias públicas) e a atividade de pesquisa esteja se propondo a conhecer uma relação desenvolvida nesse campo, esta pode ter grande interesse público, sobretudo se o questionário for bem estruturado (tanto em termos de pesquisa quantitativa quanto qualitativa) e, igualmente, pela responsabilidade social que as empresas devem ter (umas mais e outras menos a depender do segmento de atuação). Indo além: uma boa pesquisa de mercado pode evitar graves conseqüências públicas e também danosas para a imagem da organização, ao prevenir a empresa de um erro estratégico a ser cometido caso uma orientação preferível pela diretoria seja mesmo adotada.

      Quanto às pesquisas de mercado, grande parte das mesmas é realizada para o consumo interno da organização contratante como parte da estratégia decisória desta e (não raras vezes) tendo a necessidade de ser estritamente sigilosa. Aqui talvez resida uma diferença de freqüência entre as de mercado e opinião pública, uma vez que estas últimas já são realizadas com o condão de dar conhecimento à sociedade ou à determinada parcela.

      Talvez seja possível mostrar desigualdades substantivas entre as pesquisas de opinião pública e as de mercado uma vez que a segunda tem uma longa história de levantamentos regulares há muitos anos, enquanto a de opinião pública costuma estar limitada aos calendários públicos, em particular os eleitorais em intervalos de dois anos, ainda que exista uma vasta temática não eleitoral. É fato que isso também mudou muito de algum tempo para cá na medida em que as pesquisas de avaliação de governo tem sido realizadas até mesmo mês a mês, mas tal mudança decorre, provavelmente, da influência que a pesquisa de mercado teve sobre este campo. E esta maior experiência do mercado propiciou, igualmente, o avanço em técnicas e tecnologias que aos poucos passaram a ser aproveitados pelas pesquisas de opinião pública. Em um sentido puramente conceitual, a pesquisa de opinião pública só pode ser definida como alguma coisa muito distante da chamada de mercado se realizada exclusivamente no seio da academia e com propósitos exclusivamente científicos.

      Finalmente, estou convencido de que todos aqueles que desejam pensar sobre estas duas dimensões da pesquisa sem visões preconcebidas a aprisioná-los intelectualmente, observarão diferenças, mas, sobretudo, constatarão várias complementaridades e mesmo aspectos absolutamente comuns.

      *RUI TAVARES MALUF é sócio de Processo & Decisão Consultoria Política, coordenador do curso de Opinião Pública e Inteligência de Mercado da FESPSP, e professor da FESPSP. Doutor em ciência política (USP) e mestre em ciência política (UNICAMP).

      TAGs:Pesquisa; Pesquisa de Mercado; Pesquisa de Marketing; Pesquisa de Opinião Pública; Opinião Pública; Mercado; Academia; Interesses; Rui Tavares Maluf






      Artigo postado em 9 de Março de 2012

      Rui Tavares Maluf

      A REJEIÇÃO DE STEVE JOBS À PESQUISA DE MERCADO

      ELE DISSE QUE NÃO FEZ (?) E TEVE SUCESSO

      Por Rui Tavares Maluf*

      Poucos dias depois da morte do lendário criador da Apple, Steve Jobs, quando já se comentava em todo o mundo o iminente lançamento do livro biográfico mais importante a seu respeito, a partir de entrevistas concedidas a Walter Isaacson, a imprensa em todo mundo noticiou ter Jobs afirmado categoricamente que jamais realizou pesquisas de mercado. Compreensivelmente, isso ganhou largo espaço na mídia convencional e na web. Afinal de contas, a atividade empresarial de Jobs está diretamente ligada à inovação, àquilo que está por existir e por si só comporta alta dose de risco, a qual se faz tanto maior quanto mais se investe largas somas de recursos em pesquisa, desenvolvimento, publicidade, distribuição etc. Indo além: tal afirmação só parece ter feito aumentar o mito cercando o homem.

      Independentemente do quanto há de verdade em tal afirmação, penso que vale perguntar se a pesquisa de mercado é indispensável no mundo contemporâneo para uma área de tecnologia de ponta na qual atua sua empresa Apple e, por extensão para todos os mercados complexos. Ora, uma das principais justificativas a respaldar a pesquisa de mercado – seja lá com qual método for empregada - é de que esta é um como um farol ou uma lupa a iluminar ou destacar na escuridão ou na multidão disforme aqueles aspectos que se ajustem ao que você pensa em oferecer ao consumidor assegurando a correção do que está sendo desenvolvido e/ou prevenindo os riscos. Em última análise, esse tipo de pesquisa seria uma parte expressiva para o sucesso, ou ao menos para evitar o retumbante fracasso de um empreendimento.

      Antes, porém, de elencar argumentos favoráveis à pesquisa de mercado, desejo reconhecer que essa área como tantas atividades relacionadas aos interesses econômicos (as empresas de consultoria externa, por exemplo), são muitas vezes empregadas sem maior reflexão sobre sua conveniências e oportunidades. Em grandes organizações, muitas vezes as diretorias de marketing e órgãos congêneres recorrem pesquisas porque seus interesses estão ligados com dinheiro para gastar e manter seu status quo interno (isto é, por razões de política interna), ou para ajudar uma empresa de pesquisa parceira (quando a atividade é terceirizada); não pelo mérito em si da iniciativa. Mesmo quando as pesquisas parecem necessárias, é comum que estas venham desacompanhadas de uma boa formulação dos problemas e objetivos do que se deseja conhecer e o de quanto tal conhecimento se relaciona à estratégia da empresa, pois muitas vezes sua realização é feita sem a efetiva participação e comprometimento da alta direção da empresa. A negligência da fase inicial pode afetar a metodologia e comprometer integralmente os resultados. Como também o trabalho de análise dos dados levantados é regularmente negligenciado, feito às pressas, partindo-se do pressuposto de que o entendimento ocorre na medida em que as informações vão sendo obtidas. É evidente que a experiência de quem planeja, organiza e executa pesquisas com regularidade facilita a compreensão do que está aparecendo, mas isso não substitui à análise cuidadosa.

      Mas será mesmo que a pesquisa de mercado no campo da inovação (especialmente tecnológica) carece de fundamento quando se lida com alguma coisa ainda inexistente? Ora, uma boa e valiosa parte a justificar uma pesquisa está justamente em contribuir para o conhecimento do que ainda é desconhecido. O conhecimento por esta proporcionado não substituirá a liberdade de tomada de decisão da direção da organização, ou seja, não deverá torná-la refém do que o relatório final aponta. Ela pode ser um rico subsídio para uma tomada de decisão balanceada ainda e quando o líder entende que o importante a ser feito é o que não aparece das pesquisas. Todavia, é justamente quando não se conhece alguma coisa que tal recurso é mais aconselhável.

      A história de sucesso de Steve Jobs, como de sua criação a Apple, facilitou o mito cercando sua vida e pode eventualmente obscurecer alguns erros por ele cometidos devido a não realização de pesquisas de mercado. Será que ele também não errou ao acreditar que poderia curar o seu câncer pelo método próprio que escolheu, evitando ao máximo a realização da cirurgia que lhe fora recomendada havia muitos anos?

      *RUI TAVARES MALUF é sócio de Processo & Decisão Consultoria Política, coordenador do curso de Opinião Pública e Inteligência de Mercado da FESPSP, e professor da FESPSP. Doutor em ciência política (USP) e mestre em ciência política (UNICAMP).

      TAGs:Steve Jobs; Walter Isaacson; Pesquisa; Pesquisa de Mercado; Pesquisa de Marketing; Rejeição à Pesquisa; Apple; Empresas





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      Artigo postado em 3 de Abril de 2012


      Rui Tavares Maluf

      VIVEMOS EM UM GRANDE BANCO DE DADOS

      Por Rui Tavares Maluf*

      Parece justo afirmar que a vida contemporânea se dá em um grande banco de dados, mas é igualmente justo com o leitor que eu procure explicar-lhe o que pretendo dizer com tal frase, iniciando pela definição de banco de dados, a respeito do qual passo a me referir nesse artigo como BDs. Restrinjo a definição a todo ato humano intencional de armazenamento de dados que possam se transformar em informações a fim de assegurar conhecimento aos usuários, ou um melhor conhecimento sobre certos assuntos, mediante a inserção nesse BDs de ao menos dois campos diferentes, os quais disponham de dois tipos de informações. Isto é, de ao menos duas variáveis distintas de forma a permitir relacioná-las. E foco minha argumentação no âmbito das ciências sociais, da opinião pública e do marketing. Assim sendo, entendo impossível considerar como BDs a uma planilha eletrônica que armazene somente um campo de dados como o PIB brasileiro, por maior que seja a distribuição de valores sem que haja, ao menos, o campo Ano para que se possa dar pelo menos comparabilidade interna (ou seja, com o próprio PIB), permitindo ao pesquisador saber a que ano corresponde tal valor do PIB. Há quem entenda que o ano por si só é dado sem valor para ser considerado como um segundo campo, pois parte significativa dos BDs dos mais diferentes assuntos tem como pressupostos que se está trabalhando com unidades de tempo, as quais podem estar agrupadas em diferentes temporalidades (ano, trimestre, mês, semana, dia etc.), fato este que limitaria a possibilidade de considerá-lo como tal por não agregar valor. Seria preciso, por exemplo, que houvesse um segundo campo com um conjunto de dados que pudesse ser ao primeiro relacionado, tal como O Valor das Exportações Brasileiras ao longo de um determinado número de anos. Como não é para ser considerado BDs tudo aquilo que a tecnologia de informação (TI) seja capaz de oferecer sem que alguém tenha projetado quais os dados a integrarem o BDs. Ter disponível o registro eletrônico de compras efetuadas em um supermercado coletado por um leitor ótico é um passo para a formação de um BD, mas em si mesmo não é. Seja como for, penso que minha explicação ajuda ao leitor compreender a delimitação do termo.

      O surpreendente na percepção de que vivemos em um grande BDs na atualidade é que na minha restrita definição não se elimina a enorme produção verificada em busca de conhecimento, quantidade esta que transmite a sensação de que o excesso (ou talvez a intensidade com que as informações são reiteradas) pode trazer tantos prejuízos quanto a escassez. Então isso é ruim? Talvez seja bom considerando-se o fato de que mesmo o gerenciamento de aspectos não científicos da vida contemporânea implica em alguma objetividade e eficácia no seu tratamento e isso por si mesmo não implica em elevada quantidade. Dificilmente um plano superior de tomada de decisão e de ação poderão ser alcançados por profissionais liberais, organizações de diferentes tamanho, sem ter à disposição dados organizados, os quais possam ser recuperados individualmente (por registro) quanto por agrupamento de dois ou mais campos, ou, ainda vinculando duas ou mais tabelas, e mesmo sob a forma de uma listagem geral. Mas talvez não seja tão bom quando se percebe um enorme contingente de BDs que são produzidos pelo frisson de se produzir, pela idéia pura e simples segunda a qual contando com um BDs se estará em dia com a informação necessária. A crítica que faço é a de que a produção excessiva de BDs sem a devida atenção aos objetivos propostos dispersa recursos e energia de criadores, financiadores e usuários, fazendo-nos sentir perdidos em um cipoal informacional, por fazer acreditar que tendo a informação temos a resposta para os problemas que desejamos equacionar. Mais do que isso, a produção de BDs cresce muito pois as tecnologias das informações (TsI) se desenvolvem velozmente e toda uma atividade comercial executada em torno da necessidade de disseminar esta parafernália empurra-nos para tal crença.

      Todavia, o BDs é uma pequena parte de um sistema de gestão das informações (SGIs) e uma das mais importantes partes encontra-se fora das tecnologias da informação (TsI), conquanto dela se valha, e situa-se muito mais em alguma coisa bem negligenciada, a saber: análise. Ora, a análise requer por vezes muitas informações, o cotejamento dos dados, mas, sobretudo uma capacidade de observação, de formular dúvidas, de síntese etc, a qual não será com mais e mais informações que esta se viabilizará, pois em última instância os dados tendem potencialmente a uma quantidade avassaladora, cada vez maior, se não ao infinito, sem que a análise humana precise se valer de tudo isso. Poder-se-ia objetar à minha afirmação levantando-se o argumento segundo o qual os melhores sistemas de informações já se valem de análises estruturadas embutidas suprindo as limitações humanas. Sem demérito de tais recursos, continuará sendo essencial que os homens pensem, isto é, que continuem a fazer suas próprias análises, as quais, não se pode olvidar, que dependem em demasia de coisas simples como formular perguntas relacionadas aos nossos objetivos, as quais em maior ou menor medida se valerão dos sistemas de informações, mas não serão por estes suplantadas.

      *RUI TAVARES MALUF é sócio de Processo & Decisão Consultoria Política, coordenador do curso de Opinião Pública e Inteligência de Mercado da FESPSP, e professor da FESPSP. Doutor em ciência política (USP) e mestre em ciência política (UNICAMP).

      TAGs:Banco de Dados; BDs; Tecnologia da Informação; TI; TIs; Rui Tavares Maluf; Processo & Decisão Consultoria

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PESQUISAS

Este espaço é destinado a reprodução de resumo de pesquisas de opinião pública e de mercado, bem como de comentários de Processo & Decisão (P&D) aos resultados, mas, sobretudo, aos métodos e a forma como os mesmos foram divulgados. Algumas informações de pesquisas antigas são deixadas aqui propositadamente para você que se interessa pelo assunto refletir sobre as mesmas.


O ELEITORADO BRASILEIRO E AS ALTERAÇÕES DAS REGRAS DO SISTEMA POLÍTICO. Nos dias 17 e 18 de junho de 2015, o instituto Datafolha ouviu a opinião dos eleitores brasileiros em pesquisa realizada com 2.840 indivíduos em 174 municípios do País, valendo-se da metodologia de amostragem estratificada por sexo e idade com sorteio aleatório dos que serão entrevistados. A pesquisa se propôs a conhecer a opinião sobre diversos assuntos políticos e sociais que vem sendo objeto de deliberação por parte do Congresso Nacional neste primeiro semestre tão tenso, vários dos quais já foram aprovados em primeira votação em uma das Casas (Câmara dos Deputados). Grande parte destas votações ocorreu quase sem o debate com a sociedade organizada, ainda que se reconheça que tem apelo junto a diferentes setores.

Direito à reeleição.No que diz respeito a concordância com o direito de reeleição para os três cargos executivos eletivos no Brasil (presidente, governadores e prefeitos), os resultados foram os seguintes:

  • Para Presidente

  • - 30% concordam que devam ter o direito;
  • - 67% não concordam;
  • - 3% não sabem.

  • Para Governadores

  • -32% concordam que devam ter o direito;
  • -65% não concordam;
  • - 3% não sabem.

  • Para Prefeitos

  • - 33% devem ter o direito;
  • - 64% não devem ter o direito;
  • - 3% não sabem

COMENTÁRIO DE P&D SOBRE A PESQUISA. Como se observa, os percentuais dos que aprovam a reeleição são baixos e mais baixos ainda ara o presidente. Seguramente, tais manifestações refletem o atual estado de ânimo dos brasileiros com o quadro político e econômico graves. Contudo, isso não permite concluir que o eleitorado tenha clareza sobre quais são as possíveis consequências do fim do direito de reeleição hoje vigente, caso este venha mesmo a se confirmar.


PLANO-CDE. A crise econômica brasileira chegou forte para a chamada nova classe média no primeiro trimestre de 2015, apesar de este grupo social, aparentemente, relutar em se desfazer de novos hábitos de consumo que passou a incorporar em tempos recentes, como o telefone celular. É o que se pode verificar a partir de mais de uma pesquisa com este setor da população (dos que ganham entre R$ 1,5 mil e R$ 2,5 mil) realizada pela PLANO CDE, que tem MAURÍCIO PRADO como sócio-diretor. A pesquisa (reproduzida parcialmente pelo jornal OESP em 3 de maio de 2015, caderno de Economia & Negócios) foi realizada sobre as receitas e despesas de 120 famílias de baixa renda e revelaram resultados importantes em relação às seguintes questões: - O que mais preocupa hoje. Para 44% é não pagar as contas; - para 33% ficar sem emprego; - para 7% perder padrão de vida; - e para 16% outros. – O que passou a pesar no bolso. – Para 61% gastos com a Luz; - para 58% com Alimentação; - para 32% gastos com Transporte; - para 31% com Internet e TV a cabo; - para 28% com Medicamentos; - para 28% Comer fora de Casa; - Para 27% gastos com Roupas; e para 27% com Aluguel. – O que decidiu cortar para ajustar o orçamento. – Para 59% comer fora de casa; - para 49% Lazer, incluindo Cinema e Passeios; - para 38% Salão de Beleza; - Para 30% Artigos da Casa; - Para 23% Novos tipos de alimentos; - Para 11% Plano de Saúde Privado; e para 10,5% Educação Privada; - O que planeja reduzir daqui para a frente. – 34% afirmam que reduzirão o Vestuário; - 27% gastos com Luz; 23% com a Água, e 17% com o Telefone.

COMENTÁRIO DE P&D SOBRE A PESQUISA. A reportagem realizada e publicada por OESP em 3 de maio de 2015 trata de um assunto dos que mais ocupou as páginas da imprensa e do mercado à época em que a situação brasileira aparentemente ia muito bem, mediante a incorporação de um grupo social sob a classificação de classe média. O governo exultava e dava recomendações para países em crise sobre como estes deveriam agir a fim de evitar que elas atingissem suas sociedades. Bem, passado algum tempo e as eleições presidenciais de 2014 qualquer um sabe que o quadro se alterou drasticamente no Brasil e parece pouco crível que o resultado atual se deva à crise externa. O leitor de OESP, e dos dados que este veículo da imprensa utilizou, teria muito a ganhar se ficasse claro na reportagem quais são os que o jornal publicou como sendo produzidos pela PLANO CDE e os que são de responsabilidade de uma das grandes empresas de pesquisa de mercado, a NIELSEN (também mencionada na reportagem). Os gráficos não identificam a autoria, conquanto pareça que os mesmos foram gerados pela PLANO CDE. Mais do que isso, não há clareza sobre as metodologias empregadas a não ser que seus universos (população pesquisada) são distintos. E, assim sendo, os percentuais das respostas não deixam saber se as perguntas formuladas foram abertas ou fechadas (se feitas como escala, etc.), excludentes (o respondente só pode responder a uma) ou complementares (o respondente pode responder a mais de uma). Estes diferentes caminhos tendem a produzir resultados diferentes e com diferentes profundididades.

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